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Reforma Tributária: seu preço não pode continuar o mesmo só porque é mais fácil

A Reforma Tributária está obrigando as empresas a reverem sistemas, notas fiscais, contratos e cadastros. Mas existe um ponto que talvez seja ainda mais delicado — e que muitos empresários estão deixando para depois:

o preço.

E aqui está uma discussão que precisa começar agora.

Não basta pensar:

“Hoje eu vendo por R$ 100. Depois eu simplesmente coloco o IBS e a CBS por cima e pronto.”

Essa pode até parecer a solução mais simples. Mas pode ser também a forma mais rápida de ficar caro demais diante do concorrente.

A nova sistemática muda a própria lógica de formação dos preços. IBS e CBS foram estruturados como tributos calculados “por fora”: a base de cálculo é o valor da operação e o próprio IBS e a CBS não integram essa base.

Hoje, porém, boa parte dos preços praticados pelas empresas já contém ICMS, ISS, PIS e Cofins embutidos. É justamente aí que mora o problema.

O preço de hoje não pode simplesmente receber mais um imposto em cima

Imagine uma empresa que hoje vende determinado produto ou serviço por R$ 100.

Dentro desses R$ 100 já existem tributos do sistema atual.

Se o empresário simplesmente mantiver os mesmos R$ 100 como seu novo “preço líquido” e acrescentar IBS e CBS por fora, poderá estar fazendo algo muito diferente de simplesmente substituir os impostos antigos pelos novos.

Ele poderá estar mantendo dentro dos R$ 100 os tributos que desapareceram e colocando os novos por cima.

O material que analisamos chama atenção exatamente para esse risco: aplicar IBS e CBS sobre o preço atual, sem antes decompor esse preço, pode fazer com que ICMS, ISS, PIS e Cofins permaneçam economicamente dentro da margem e que o desembolso do cliente aumente pela nova tributação. preços

É aqui que o empresário precisa abandonar uma ideia muito confortável:

“Depois a gente vê.”

Porque o seu concorrente talvez veja antes.

Seu concorrente pode chegar a um preço completamente diferente do seu

Dois empresários podem vender exatamente o mesmo produto ou serviço e chegar a resultados muito diferentes na transição.

Um pode fazer assim:

Preço atual + IBS + CBS.

Outro pode analisar:

  • quanto do preço atual corresponde aos tributos que deixarão de existir;
  • quanto efetivamente representa sua receita;
  • quais créditos de IBS e CBS terá nas compras;
  • qual margem precisa preservar;
  • se seu cliente poderá aproveitar crédito;
  • e qual preço final o mercado efetivamente aceita.

O segundo poderá descobrir que tem espaço para praticar um preço menor.

E aí não interessa que a contabilidade do primeiro esteja “correta”.

O consumidor olha o preço.

A empresa pode estar pagando corretamente seus impostos e, ainda assim, estar comercialmente errada.

Essa talvez seja uma das maiores mudanças de mentalidade trazidas pela Reforma Tributária:

precificação deixa de ser apenas “custo + margem + imposto”. Ela passa a depender também da posição da empresa e do cliente dentro da cadeia tributária.

Precificar durante a transição exige conhecer a receita líquida atual, identificar quais aquisições gerarão créditos e compreender quanto o cliente credita hoje e quanto poderá creditar no novo sistema.

Seu cliente também mudou

Há outra pergunta que muitos empresários ainda não estão fazendo:

Quem compra de você?

Se o seu cliente estiver no regime regular do IBS e da CBS, ele poderá, observadas as regras legais, apropriar créditos sobre suas aquisições.

Para esse cliente empresarial, portanto, o que importa não é necessariamente apenas o valor total da nota. É preciso avaliar o custo depois dos créditos.

Já para o consumidor final, pessoa física ou outro adquirente que não aproveite integralmente esses créditos, a realidade é diferente.

Nesse caso, o valor que sai do bolso pesa muito mais.

Isso significa que a empresa talvez precise analisar até mesmo segmentos diferentes de clientes.

Vender para outra empresa pode exigir uma estratégia de preço.

Vender para o consumidor final pode exigir outra.

“Mas eu quero continuar ganhando exatamente a mesma coisa.”

É compreensível.

Só existe um detalhe:

o mercado não é obrigado a aceitar a sua margem.

Essa é provavelmente a parte mais incômoda dessa conversa.

O empresário pode calcular que, para preservar exatamente a margem atual, precisaria vender um determinado serviço por R$ 1.200.

Mas se três concorrentes conseguirem vender algo equivalente por R$ 1.100, o problema deixa de ser tributário.

Passa a ser comercial.

E a Reforma Tributária poderá evidenciar ineficiências que hoje estão escondidas dentro dos preços.

Talvez seja necessário:

reduzir custos, renegociar fornecedores, rever margem, mudar processos, aproveitar melhor créditos ou até rever o posicionamento comercial.

O que não dá é simplesmente acrescentar o IVA e esperar que o cliente aceite.

E tem mais: como você vai mostrar esse preço para o consumidor?

Essa discussão ainda tem outro capítulo importante.

Como ficará a exposição dos preços?

Preço na gôndola.

Preço na vitrine.

Preço no cardápio.

Preço no site.

Preço no e-commerce.

Preço no orçamento.

Preço no anúncio.

A legislação atual de defesa do consumidor exige que o preço seja apresentado de forma correta, clara, precisa, ostensiva e legível. O Decreto nº 5.903/2006 determina, inclusive, que o preço à vista seja informado de maneira que o consumidor consiga compreendê-lo sem precisar fazer cálculos.

A Lei nº 10.962/2004 também estabelece as formas de afixação do preço no varejo e, no comércio eletrônico, exige divulgação ostensiva do preço à vista junto ao produto ou serviço.

Isso cria uma questão prática enorme com a chegada do IBS e da CBS.

O que exatamente aparecerá para o consumidor?

Imagine uma etiqueta:

Produto: R$ 100,00
IBS/CBS: R$ 27,00
Total: R$ 127,00

Ou simplesmente:

Preço final: R$ 127,00

Ou ainda algum modelo intermediário que destaque o tributo sem retirar a visibilidade do preço final.

Essa questão ainda merece definições e padronizações mais claras para a nova realidade.

A reportagem do Valor Econômico mostra justamente que grandes varejistas ainda discutem como irão apresentar esses valores nas gôndolas, enquanto permanece a preocupação de que o consumidor continue enxergando de maneira clara o preço efetivamente devido.

Ou seja:

se até os grandes varejistas ainda estão pensando em como fazer, sua empresa também precisa começar a pensar.

Não é só problema do supermercado

Talvez o empresário leia isso e pense:

“Mas eu não tenho gôndola.”

Tudo bem.

Você tem proposta comercial?

Cardápio?

Tabela de preços?

Site?

Instagram?

WhatsApp?

E-commerce?

Orçamento?

Contrato com preço definido?

Então o problema também é seu.

A pergunta que deveria estar na reunião da sua empresa hoje

Em vez de perguntar apenas:

“Quanto vai ser a alíquota do IBS e da CBS?”

Comece a perguntar:

“Qual será o meu preço depois da Reforma Tributária?”

E depois:

“Qual será o preço do meu concorrente?”

Porque essa segunda pergunta talvez seja mais importante do que a primeira.

O que as empresas deveriam fazer ainda em 2026

Não espere 2027 para colocar uma nova alíquota no sistema e descobrir o resultado.

Agora é o momento de simular.

Pegue seus principais produtos e serviços e analise:

  1. Qual é o preço praticado hoje?
  2. Quanto desse preço corresponde aos tributos atuais?
  3. Qual é sua margem real hoje?
  4. Quais compras passarão a gerar crédito de IBS e CBS?
  5. Seu cliente terá direito a crédito?
  6. Qual será o custo efetivo dele depois dos créditos?
  7. Quanto o consumidor final suporta pagar?
  8. O que seus principais concorrentes provavelmente farão?
  9. Seus contratos permitem revisão de preços?
  10. Como esse novo preço será mostrado ao consumidor?

Essa análise precisa envolver contabilidade, comercial, financeiro e marketing.

A Reforma Tributária não vai deixar todos mais caros da mesma maneira

Esse talvez seja o maior erro de raciocínio que estamos vendo:

“Se o imposto subir para mim, vai subir para todo mundo.”

Não necessariamente.

Empresas têm custos diferentes.

Créditos diferentes.

Fornecedores diferentes.

Margens diferentes.

Clientes diferentes.

Regimes tributários diferentes.

Poder de negociação diferente.

E estratégias comerciais diferentes.

Por isso, a mesma mudança tributária poderá produzir preços muito diferentes entre concorrentes.

É exatamente por essa razão que o tema precisa sair da gaveta do departamento fiscal e chegar à mesa dos empresários.

Não espere descobrir seu novo preço pela reação do cliente

A Reforma Tributária vai mudar impostos.

Mas também vai mexer com margem, negociação, concorrência e percepção de preço.

O empresário que simplesmente pegar o preço de hoje e acrescentar IBS e CBS talvez descubra tarde demais que fez a conta mais fácil — e não a melhor.

Seu concorrente poderá decompor o preço atual.

Rever custos.

Aproveitar créditos.

Reduzir margem em determinados produtos.

Compensar em outros.

Negociar com fornecedores.

E chegar ao consumidor com uma proposta melhor.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para 2027 não seja:

“Quanto imposto minha empresa vai pagar?”

Talvez seja:

“Depois da Reforma Tributária, por quanto minha empresa conseguirá vender?”

E essa conta precisa começar antes que o seu concorrente faça a dele.

Acompanhe também:

Reforma tributária e precificação – preços diferentes na prateleira e no caixa

Preços diferentes na prateleira e no caixa – grande dor de cabeça da reforma

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